Seg, 14 de Março de 2011 22:23

Cama Puerto - Descrição da solução de Design

Escrito por  Henrique Mattar Monnerat
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O problema em questão

O projeto Cama Puerto acolhe a premissa de que a manutenção de relativo grau de privacidade é essencial em espaços socializados destinados ao descanso. Pela natureza da situação de exclusão, o indivíduo tende a encontrar no dormitório do abrigo — mais especificamente na cama que lhe é destinada, uma espécie de território próprio. Algo como um porto: um lugar para ancorar, restabelecer energias, refletir e traçar objetivos.

A Cama Puerto se dedica a fornecer condições para:

  • a obtenção de relativo grau de privacidade, por intermédio da possibilidade de compor um micro‐ambiente sem isolar o usuário do espaço socializado; da chance — para mães recentes — de aleitar seus filhos de maneira reservada e mais aconchegante, assim como protegê‐los do risco detombos ao dormir; da oportunidade de recolhimento para reflexão ou práticas espirituais;

  • a guarda de pertences pessoais, como medicamentos, roupas e calçados, livros, papéis, documentos, símbolos religiosos, brinquedos etc.

  • a possibilidade de variadas configurações espaciais, proporcionada pelo princípio formal do produto, que oferece aos usuários a chance de diferentes arranjos;

O grupo entende que a situação enfocada é de cunho universal. Universal também nos parece ser o efeito alcançado pelas obras do escultor Ron Mueck. Elas conseguem representar a questão humana abordada pelo concurso: variações dimensionais hiper‐realistas expressando estranhamento e exclusão. Por este motivo as empregamos como suporte narrativo da argumentação que se segue.

Refletindo sobre a situação de exclusão social, visualizamos indivíduos em rota orbital à sociedade. Parece lhes faltar o “passe” para atravessar uma espécie de membrana que os aparta do sistema social. Como os apátridas, estão sem chão, longe de suas referências, com pouca ou nenhuma perspectiva. Uma identidade nublada, mesmo que provisoriamente.

 

Ron Mueck - In Bed, 2005


A exclusão social não é uma sensação. É uma situação evidente, objetiva e concretamente constatável, tanto pelo excluído quanto pelo sistema que o exclui e também pelas iniciativas que tentam incluí‐lo novamente.
Assim, é útil considerar que o conceito de exclusão pressupõe a existência de uma fronteira, seja ela comportamental, psíquica, cultural, ideológica ou nacional. E também que a idéia de fronteira se opõe à de fluxo,
pois fronteiras são demarcadas pela necessidade de conter fluxos, codificando o que faz parte e aquilo que não faz parte, com as regras e condições que tornarão algo externo, interno e vice‐versa.

 

Ron Mueck - Boy, 2000

A cada dia a intensidade dos fluxos aumenta e, por conseqüência, as fronteiras ficam mais e mais delineadas, tornadose difícil para os indivíduos transpor limites que pressupõem a
exclusão de tudo o que não se adapte. O sistema econômico faz isso, as guerras fazem isso, os desastres ambientais também, assim como as intolerâncias ideológicas e religiosas.

Ron Mueck - Mother and Child, 2001

A exclusão social também se depara, contemporaneamente, com a consideração dos direitos humanos como valor essencial, exigindo políticas inclusivas dos Estados para com seus nacionais, regras de controle de entrada para imigrantes e providências que propiciem sua adaptação à sociedade.

Ron Mueck - Untitled, 2000

Por sua vez, o excluído está apartado das condições que lhe seriam caras. Ele tende a não ser reconhecido e tampouco a se reconhecer como igual perante os incluídos. Acolhimento e incentivo revelamse estímulos essenciais para que o indivíduo busque uma mudança de quadro, estímulos estes que ficam a cargo das instâncias públicas no oferecimento de recursos básicos de moradia provisória, saúde, educação e orientação profissional.

Ron Mueck - In Bed, 2005

Em uma moradia provisória, o espaço é compartilhado, e no dormitório será destinado um lugar para dormir a cada pessoa.
Entendemos que este será seu “território” durante aquele período. Um território elementar, un puerto posible.

Descrição Técnica da Solução

A Cama Puerto é composta de 1 plataforma (A), 4 containers (B) e 2 “velas” (C).

A . a plataforma é uma estrutura simples (compensado de madeira de 20 mm com acabamento em laminado de madeira e fórmica), com cabeceira, estrado, chapa de suporte do colchão, e uma área de armazenamento
localizada debaixo da cama. Formalmente o objeto apresenta a configuração de uma cama tradicional e a cabeceira faz menção à representação gráfica de uma “casa”‐ reforçando o símbolo de abrigo. Sua forma é determinada por princípios de aproveitamento de espaços e materiais, viabilizando as funções de armazenamento (B) — local para a guarda de objetos em containers ou livremente dispostos — e de privacidade (C), por intermédio de dispositivo para fixação das “velas” nas laterais e na cabeceira. A cama pode ser ocupada por um adulto ou por uma mãe e um bebê. Os métodos de fabricação e produção do objeto empregam técnicas simples, fazendo uso de cavilhas, cola e parafusos.

B . os containers são 4 módulos multifuncionais (compensado de madeira de 20 mm com acabamento em laminado de madeira e fórmica, com estofado forrado na parte interna
da tampa). Podem ser acomodados na plataforma ou em seu entorno. Servem para guardar ou apoiar objetos pessoais, possibilitando diversos arranjos e configurações (inclusive empilhamento), de acordo com a necessidade de cada usuário (caixa, criadomudo, assento, bandeja).

C . as “velas” (tecido cotton costurado, 90% algodão e 10% elastano) proporcionam diferentes níveis de privacidade e abrigo. Cada uma das duas “velas” permite 3
configurações: semi‐aberta, aberta e armazenada. Na configuração semi‐aberta um nível parcial de privacidade é criado entre o usuário e as pessoas do entorno; quando aberta provê um maior isolamento do ambiente externo, podendo proporcionar abrigo relativo à luminosidade, ao som e ao olhar dos demais ocupantes do dormitório; no modo armazenada está recolhida e guardada ao longo das laterais da cama. O sistema de armação da “vela” é composto de pontos de fixação ancorados ao longo do interior da plataforma (A) e atrás da cabeceira, e anéis que facilitam sua montagem. Quando não utilizadas, as “velas” ficam armazenadas lateralmente no espaço entre o colchão e a estrutura da plataforma. A modelagem das “velas” é simples, possibilitando que venham a ser produzidas em diferentes cores, padrões e opacidades. Permitindo ainda que o próprio usuário seja capaz de manufaturá‐las ou customizá‐las, caso deseje.

Em Breve colocaremos disponível no blog do projeto mais imagens e arquivos de design do projeto! Até lá!

Última modificação em Seg, 14 de Março de 2011 23:40
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