Qua, 09 de Fevereiro de 2011 19:21

Desinformação Visual em Movimento

Escrito por  Fernando
Nova roupagem elimina diferenciação cromática. Muitas vezes "menos NÃO é mais"... Nova roupagem elimina diferenciação cromática. Muitas vezes "menos NÃO é mais"... Foto: Henrique Mattar Monnerat
Recentemente o carioca pode notar o que parece ser um processo de padronização visual das linhas de ônibus que circulam nas Zonas Norte, Sul, Oeste e do Centro do Rio. Como cidadão que utiliza o transporte público venho sentindo as dificuldades que essas mudanças trouxeram; como designer esse processo me incomoda profundamente.

Até a recente adoção das cores branca e cinza como o padrão para diversos carros de várias linhas de ônibus do Rio, eu tinha um sistema baseado nas cores, número da linha e itinerário dos ônibus que era bastante eficaz. Por exemplo: havia o grupo dos “circulares da Zona Sul” - dos quais faço uso diariamente - que eram creme, azul e vermelho; o grupo dos “cento-e-setentas”, a maioria branco e amarelo, com três em branco e azul; o grupo dos “laranjinhas”, obviamente, todos cor de laranja; entre outros. Havia no meu sistema, eu admito, grupos mais heterogêneos e, talvez, mais subjetivos, como os do “que vêm da Zona Norte e passam em Copacabana”, cujas cores e itinerários eram bem diversos. Mas, em contraste com outros grupos mais homogêneos, esse grupo fazia sentido pra mim. Bem, não mais; e o pior é que eu suspeito fortemente que muitos outros cariocas e fluminenses tenham/tinham sistemas similares, se não iguais ao meu...

Se antes eu dispunha do número da linha, pontos de passagem do itinerário e, principalmente, da cor dos ônibus como referência para decidir se daria tempo de correr de onde eu estivesse até o ponto; se eu faria sinal para o motorista parar; ou se de madrugada eu esperaria mais uma ou duas horas por outro “laranjinha” porque acabara de perder um, agora eu preciso estar de frente para o carro, próximo a ele e com alguma sorte para identificar com precisão se o que vem é um 5-alguma-coisa ou um dos “ ex-cento-e-setentas”. Eu digo 'com sorte' porque com os moderníssimos displays de LED, mesmo de frente para o ônibus, o número da linha é apenas uma entre muitas informações que as empresas decidiram mostrar ao cidadão que aguarda - geralmente debaixo de um calor obsceno - por uma condução cara e muito provavelmente lotada. Posso estar errado, mas não acho que eu seja o único que esperava nervoso a mensagem “Nos(sic) desejamos a todos um Feliz Natal e um prospero(sic) Ano Novo!” terminar logo para saber qual o número do ônibus que vinha a oitenta quilômetros por hora na faixa da esquerda, já que agora muitos deles são super modernos em suas cores padronizadas e com seus lindos letreiros luminosos (quando, raramente, todas as micro-lâmpadas de LED funcionam e mostram informação útil de fácil acesso ao passageiro).

Como designer, penso que a opção por padronizar as cores das diferentes linhas não traz benefício algum ao cidadão. Um nível importantíssimo de informação foi perdido: a diferença de cor - cuja percepção é bem mais imediata que a diferença de forma dos números das linhas (quando se consegue vê-los). Não bastasse a cor, por si só, ser um componente da percepção visual de acesso mais imediato que a forma, a cor nos ônibus do Rio ocupava uma área muito maior do que qualquer outra informação visual disponível. As cores dos carros podiam ser vistas de muito longe ou muito perto; quando o ônibus estivesse de frente, de lado, ou de traseira para o potencial passageiro; contra o sol de meio-dia ou à noite. Ou seja, com a recente padronização, o cidadão perdeu em qualidade e em quantidade de informação visual para tomar decisões triviais no seu cotidiano quando em trânsito de casa para o trabalho, para o lazer, ou simplesmente quando exercendo seu direito constitucional de ir e vir para onde bem entender.

Como se o problema da mudança das cores não fosse suficiente, vemos na maioria das linhas do Rio um desrespeito diário com os cobradores de passagem. De uns anos para cá as empresas modificaram o arranjo interno dos ônibus, reconfigurando, consequentemente, a estação do cobrador, o que diminuiu significativamente o espaço entre a cadeira do funcionário e a roleta de cobrança. O resultado lamentável é que a maioria dos cobradores - sejam eles homens muito altos ou mulheres muito baixas - viaja de lado, com as costas recostadas no braço da cadeira, que é posicionado em diagonal para oferecer algum apoio ao corpo do trabalhador. Em um país sério os cobradores já teriam falido as empresas de ônibus em processos trabalhistas. Mas aqui, na Terra do Futebol (apesar das últimas Copas), as empresas continuam aumentando o preço das passagens, fazendo mudanças absurdas em suas frotas e caminhando para o que será um dos maiores monopólios da cidade do Rio de Janeiro.

Há pouca discussão, e nenhum movimento da sociedade civil e do poder público, para pressionar as empresas a respeito, por exemplo, de melhorias de conforto, usabilidade e segurança nos interiores dos carros, ou sobre a qualificação dos motoristas. A quantidade, qualidade e disposição dos assentos; o posicionamento dos corrimãos de apoio e das cordas de sinal à parada; o acesso de pessoas idosas ou portadoras de deficiência física; a implementação obrigatória de sistemas ar-condicionado (ou o escurecimento dos vidros); a punição de motoristas que desconsideram as leis de trânsito ou que são indiferentes à movimentação dos passageiros e arrancam ou freiam ao seu bel prazer; a fumaça ejetada em grandes quantidades degradando a qualidade do ar da cidade ... Enfim, para todos os itens dessa lista de infortúnios existem soluções (muitas delas de competência do design) que vêm, lamentavelmente, sendo historicamente desconsideradas e culturalmente aceitas.

Como cidadão, sinto meus direitos sendo encolhidos, já que, por meio de um edital obscuro e teoricamente imparcial, fui colocado à parte do processo de mudança do transporte rodoviário urbano do Rio. Como designer, sinto que meu conhecimento não vem servindo às causas mais caras à população, já que as coisas que os designers deveriam estar desenvolvendo – como sistemas de identificação rápida de transporte urbano ou aperfeiçoamento do interior dos carros – estão sendo impunemente impostas por executivos que primam por exibir em suas frotas de ônibus uma identidade visual que nada diz ou informa, apenas reforça a recente e muito próspera união de empresas privadas no domínio do espaço público.

Última modificação em Qui, 10 de Fevereiro de 2011 17:09
Comentarios (7)Add Comment
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escrito por Estevão Menegaz, fevereiro 10, 2011
Muito bom e pertinente o texto. O atual sistema de ônibus do Rio é extremamente precário e monopolista. Questões como o assento do trocador, ar condicionado muitas outras ainda imperam sobre o transporte coletivo do Rio. Porém, acredito que a padronização das cores tenha um lado positivo. Levemos em conta umas questões:
As atuais cores representam de certa forma o monopólio de cada empresa sobre aquela linha, tendo em vista que as cores não respeitam regiões ou itinerários e sim, a empresa.
Outra questão que não posso deixar de comentar é que de talvez essa seja uma preocupação um pouco bairrista, pois já sabemos as linhas e as cores. Pra quem vê
De fora a padronização pode ajudar mais do que atrapalhar, já que vivemos também numa realidade de vans, ônibus piratas e onde quem vem de fora, seja o turista convencional, o migrante ou o turista de negócios é tratado como caça no rio de Janeiro.
Enfim, espero ter contribuído um pouco para o debate!
Estevão Menegaz
Arquiteto e urbanista




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escrito por isabel, fevereiro 11, 2011
Gostei muito do texto e concordo com praticamente tudo que foi dito, mas, apesar de também ter meu sistema com as cores dos ônibus, acredito que a padronização pode ser positiva, pelo motivos ditos pelo Estevão. Entretanto, ela deve ser associada à uma melhor organização dos pontos de ônibus. Se eu sei exatamente quais ônibus param em um ponto, e quais não param, (através de uma sinalização clara e que é obedecida) eu não preciso ficar preocupada em ver o meu ônibus muito antes dele chegar (através das diferentes cores) para garantir que ele não vai passar "por fora", pois terei certeza que ele irá diminuir a velocidade ao se aproximar do ponto. Acho isso essencial para que essa padronização funcione.
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escrito por Eduardo Pereira, fevereiro 11, 2011
Excelente texto Fernando! Muitas idéias podem sair de discussões deste tipo e penso que o caminho para a ação ou reação construtiva seja este. Tb acho que o esquema de cores anterior era melhor, porém, a idéia da padronização, desde que melhor e mais discutida, deve trazer mais benefícios para a população. Outra idéia, q já discuti em algumas conversas sobre o problema da identificação e imediata sinalização (estender o braço) por parte do cidadão, para que os motoristas parem nos pontos, é a de colocar transmissores nos pontos e receptores nos ônibus. Assim, quem está no ponto aperta um botão no no. do ônibus desejado e um sinal é disparado (em IR ou RF) para o receptor do ônibus em questão, numa distância de até 100m. Uma luz acende no painel do motorista indicando q no próx. ponto tem gente querendo embarcar. Bem, resumidam. é isso... Parabéns outra vez pelo texto! Ed
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escrito por richard, fevereiro 13, 2011
Parabéns pelo texto e por levantar a bola desta importante discussão. Nota dez para os comentários também, muito pertinentes.
Também tenho minhas ressalvas quanto ao novo sistema implantado. Tanto pela escolha do cinza como cor padrão predominante - provavelmente por ser mais "neutro" - quanto por sua complexa codificação que não é exatamente intuitiva...
Entendo que toda mudança passa por uma período de crítica e rejeição inerentes ao próprio processo. No entanto, como a Isabel frisou bem, de nada adianta se não vier acompanhado de um esforço e investimento em treinamento e profissionalização do serviço como um todo. Qual é o problema primordial a ser resolvido: a estética da cidade ou a satisfação, segurança e qualidade de vida do cidadão.
Pessoalmente achava curioso o balé de cores dos ônibus da cidade do rio de janeiro, nem sempre belo mas certamente mais "divertido" que o cinza. Os laranjas, amarelos, verdes e outras cores mais davam um colorido ao serviço de transporte, que de neutro não tem nada. Este, certamente, deve figurar entre os serviços públicos mais criticados da cidade. Não é uma mensagem de "feliz ano novo" num letreiro de led - que devia apenas informar o número e destino da linha - que vai mudar este quadro. Muito pelo contrário, como disse bem o Fernando no texto acima.
Fernando
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escrito por Fernando, fevereiro 13, 2011
Excelente o ponto da Isabel. Realmente, seria ótimo que houvesse uma sinalização eficiente quanto a quais ônibus param em quais pontos (e quando). Aliás, como já existe em várias outras cidades. Curitiba é um exemplo internacional nesse quesito e tem um sistema muito eficiente que aborda os vários elementos do transporte urbano.
Mas meu argumento, apesar de usar a nova padronização como ponto de partida, vai além. Temos ainda a questão da estação de trabalho do cobrador, da competência dos motoristas e da postura das pessoas em relação ao que elas esperam do transporte público.
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escrito por Lucas , fevereiro 17, 2011
Levantar a bola pra discutir a qualidade do serviço de transporte público n é novidade, ou pelo menos não devia ser. O texto aí aborda, de fato, alguns pontos importantes, como a ergonomia do trocador e os letreiros luminosos que não mostram o número da linha o tempo todo, mas o ponto de partida que ele escolhe pro texto é equivocado.

O novo sistema de cores pode não ser o melhor possível projetado, mas definitivamente é melhor que o anterior que se baseava unicamente na empresa que detinha os direitos sobre a tal linha.

Se o autor conseguiu criar um sistema de identificação mais ou menos eficiente para si mesmo, ao longo da vida como cidadão do rio, ótimo. Mas isso se deve a um conjunto se condições específicas , como o fato de ele morar em determinado ponto da zona sul e a as empresas que fazem os serviços para aquela área coincidentemente explorarem trechos mais ou menos semelhantes. Mas há de se pensar nas pessoas que vêm à cidade e não têm anos e anos de estadia para criar um sistema próprio, ou mesmo a na maioria de pessoas que não estão localizadas num ponto da cidade onde o monopólio das empresas faça tanto sentido geograficamente.

Não precisamos de um sistema pessoal de comunicação dos ônibus por cores, mas de um coletivo que funcione bem. E o autor, como designer que faz questão de frisar ser, deveria focar melhor nisso.
Fernando
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escrito por Fernando, fevereiro 17, 2011
Lucas, se você enrtendeu que eu advogo por um sistema pessoal de comunicação dos ônibus por cores, talvez você deva reler o texto, porque eu em nehum momento preconiso isso. Meu ponto, ao ilustrar meu sistema próprio de entendimento das linhas, é simplesmente o de ressaltar que as variações de cores PERMITIAM a criação de um sistema de entendimento dos números e itinerários.

O argumento de considerar o usuário visitante da cidade é muito bom e já foi, inclusive, comentado por outros leitores. Eu só não consigo entender, ainda, em que medida a padronização facilita o reconhecimento das linhas por parte desses usuários (ou mesmo dos moradores com anos e anos de estadia no Rio).

Simplificando a questão: antes, um porteiro de hotel poderia informar a um turista: "Pegue o 432, é um ônibus totalmente laranja." E o visitante precisaria, então, prestar a atenção somente nos ônibus laranjas que cruzassem sua visão. Em breve, com a padronização, o visitante terá que ler o número de todos os ônibus que passarem no ponto.

De que forma a padronização facilitou o reconhecimento?

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