Visto nas ruas do Rio de Janeiro
Como é bom ver a arte se fundindo com o mobiliário urbano. Essa intervenção pode ser vista na marquês de São Vicente, bem perto da PUC-Rio. O trabalho é do Gustavo Liuzzi.
Valeu Marcello pela dica!
Desinformação Visual em Movimento
Até a recente adoção das cores branca e cinza como o padrão para diversos carros de várias linhas de ônibus do Rio, eu tinha um sistema baseado nas cores, número da linha e itinerário dos ônibus que era bastante eficaz. Por exemplo: havia o grupo dos “circulares da Zona Sul” - dos quais faço uso diariamente - que eram creme, azul e vermelho; o grupo dos “cento-e-setentas”, a maioria branco e amarelo, com três em branco e azul; o grupo dos “laranjinhas”, obviamente, todos cor de laranja; entre outros. Havia no meu sistema, eu admito, grupos mais heterogêneos e, talvez, mais subjetivos, como os do “que vêm da Zona Norte e passam em Copacabana”, cujas cores e itinerários eram bem diversos. Mas, em contraste com outros grupos mais homogêneos, esse grupo fazia sentido pra mim. Bem, não mais; e o pior é que eu suspeito fortemente que muitos outros cariocas e fluminenses tenham/tinham sistemas similares, se não iguais ao meu...
Se antes eu dispunha do número da linha, pontos de passagem do itinerário e, principalmente, da cor dos ônibus como referência para decidir se daria tempo de correr de onde eu estivesse até o ponto; se eu faria sinal para o motorista parar; ou se de madrugada eu esperaria mais uma ou duas horas por outro “laranjinha” porque acabara de perder um, agora eu preciso estar de frente para o carro, próximo a ele e com alguma sorte para identificar com precisão se o que vem é um 5-alguma-coisa ou um dos “ ex-cento-e-setentas”. Eu digo 'com sorte' porque com os moderníssimos displays de LED, mesmo de frente para o ônibus, o número da linha é apenas uma entre muitas informações que as empresas decidiram mostrar ao cidadão que aguarda - geralmente debaixo de um calor obsceno - por uma condução cara e muito provavelmente lotada. Posso estar errado, mas não acho que eu seja o único que esperava nervoso a mensagem “Nos(sic) desejamos a todos um Feliz Natal e um prospero(sic) Ano Novo!” terminar logo para saber qual o número do ônibus que vinha a oitenta quilômetros por hora na faixa da esquerda, já que agora muitos deles são super modernos em suas cores padronizadas e com seus lindos letreiros luminosos (quando, raramente, todas as micro-lâmpadas de LED funcionam e mostram informação útil de fácil acesso ao passageiro).
Como designer, penso que a opção por padronizar as cores das diferentes linhas não traz benefício algum ao cidadão. Um nível importantíssimo de informação foi perdido: a diferença de cor - cuja percepção é bem mais imediata que a diferença de forma dos números das linhas (quando se consegue vê-los). Não bastasse a cor, por si só, ser um componente da percepção visual de acesso mais imediato que a forma, a cor nos ônibus do Rio ocupava uma área muito maior do que qualquer outra informação visual disponível. As cores dos carros podiam ser vistas de muito longe ou muito perto; quando o ônibus estivesse de frente, de lado, ou de traseira para o potencial passageiro; contra o sol de meio-dia ou à noite. Ou seja, com a recente padronização, o cidadão perdeu em qualidade e em quantidade de informação visual para tomar decisões triviais no seu cotidiano quando em trânsito de casa para o trabalho, para o lazer, ou simplesmente quando exercendo seu direito constitucional de ir e vir para onde bem entender.
Como se o problema da mudança das cores não fosse suficiente, vemos na maioria das linhas do Rio um desrespeito diário com os cobradores de passagem. De uns anos para cá as empresas modificaram o arranjo interno dos ônibus, reconfigurando, consequentemente, a estação do cobrador, o que diminuiu significativamente o espaço entre a cadeira do funcionário e a roleta de cobrança. O resultado lamentável é que a maioria dos cobradores - sejam eles homens muito altos ou mulheres muito baixas - viaja de lado, com as costas recostadas no braço da cadeira, que é posicionado em diagonal para oferecer algum apoio ao corpo do trabalhador. Em um país sério os cobradores já teriam falido as empresas de ônibus em processos trabalhistas. Mas aqui, na Terra do Futebol (apesar das últimas Copas), as empresas continuam aumentando o preço das passagens, fazendo mudanças absurdas em suas frotas e caminhando para o que será um dos maiores monopólios da cidade do Rio de Janeiro.
Há pouca discussão, e nenhum movimento da sociedade civil e do poder público, para pressionar as empresas a respeito, por exemplo, de melhorias de conforto, usabilidade e segurança nos interiores dos carros, ou sobre a qualificação dos motoristas. A quantidade, qualidade e disposição dos assentos; o posicionamento dos corrimãos de apoio e das cordas de sinal à parada; o acesso de pessoas idosas ou portadoras de deficiência física; a implementação obrigatória de sistemas ar-condicionado (ou o escurecimento dos vidros); a punição de motoristas que desconsideram as leis de trânsito ou que são indiferentes à movimentação dos passageiros e arrancam ou freiam ao seu bel prazer; a fumaça ejetada em grandes quantidades degradando a qualidade do ar da cidade ... Enfim, para todos os itens dessa lista de infortúnios existem soluções (muitas delas de competência do design) que vêm, lamentavelmente, sendo historicamente desconsideradas e culturalmente aceitas.
Como cidadão, sinto meus direitos sendo encolhidos, já que, por meio de um edital obscuro e teoricamente imparcial, fui colocado à parte do processo de mudança do transporte rodoviário urbano do Rio. Como designer, sinto que meu conhecimento não vem servindo às causas mais caras à população, já que as coisas que os designers deveriam estar desenvolvendo – como sistemas de identificação rápida de transporte urbano ou aperfeiçoamento do interior dos carros – estão sendo impunemente impostas por executivos que primam por exibir em suas frotas de ônibus uma identidade visual que nada diz ou informa, apenas reforça a recente e muito próspera união de empresas privadas no domínio do espaço público.